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Cobras sem ‘patas’, mamíferos sem olhos. Como a evolução explica?

Cobras sem ‘patas’, mamíferos sem olhos. Como a evolução explica?

Cobras, lagartos, crocodilos, jacarés e tartarugas são todos répteis, compartilhando diversas características em comum, relacionadas principalmente com a conquista do ambiente terrestre. Cobras e lagartos são ainda mais aparentados, sendo agrupados em uma mesma ordem. No entanto, cobras e lagartos diferem em uma característica morfológica óbvia: as cobras não têm membros locomotores. Por que?

Sabemos que mutações ocorrem no DNA ao longo do tempo e de forma aleatória, e essas mutações podem ou não causar alterações morfológicas nos indivíduos. Essas alterações, por sua vez, podem desaparecer nas próximas gerações, ou serem mantidas, aumentando em proporção e se tornando o tipo morfológico predominante.

Analisando dois exemplos clássicos – a perda de membros locomotores em cobras e a perda dos olhos em mamíferos subterrâneos – cientistas já identificaram várias mutações associadas a perda dessas características.

Em mamíferos subterrâneos, os genes envolvidos na formação de um olho funcional acumularam tantas mutações ao longo do tempo que se tornaram genes não funcionais. No caso das cobras, no entanto, a maioria dos genes envolvidos na formação de membros locomotores está intacta, e as mutações que determinam a ausência de membros ocorreram nas regiões que regulam a expressão desses genes. De uma forma ou de outra, o resultado foi o mesmo: a perda dessas características.

Por que características como essas, que parecem tão importantes, seriam perdidas? Como a seleção natural caminha para esse fim, se de acordo com ela, os indivíduos mais adaptados ao ambiente sobrevivem? A verdade é que nem todas as características são importantes para todos os animais em todos os ambientes.

Para mamíferos que habitam regiões subterrâneas, completamente escuras, qual seria a vantagem de ter um olho funcional? Como uma mutação responsável pela perda da visão poderia estar sob pressão seletiva em um ambiente no qual enxergar não traz nenhuma vantagem ao indivíduo? Nesse caso, as mutações associadas à visão passam “despercebidas” pela seleção natural e acabam sendo mantidas, resultando na inativação de vários genes relacionados. De um modo simples, um animal com visão perfeita e um animal completamente cego têm a mesma chance de sobrevivência em um ambiente sem luz.

No caso das cobras, de acordo com os registros fósseis, seus antepassados tinham membros locomotores visíveis. Mas há cerca de 100 milhões de anos, essa característica foi desaparecendo. Os genes para o desenvolvimento de ‘patas’ continuam presentes na maioria das cobras, porém, desligados. De alguma forma, eles deixaram de ser necessários à medida que elas se especializaram em um método de locomoção alternativo.  Apesar de não terem ‘patas’, as cobras são altamente adaptadas ao ambiente terrestre. São capazes de rastejar e se locomover com muita agilidade, o que nos mostra que os membros locomotores não fazem nenhuma falta para elas e, muito provavelmente, se estivessem presentes, poderiam até atrapalhar.

Para cada indivíduo e em cada ambiente, a seleção natural atua de modo diferente. Mutações estão ocorrendo o tempo todo, e o que é vantajoso para uns, pode não ser para outros. O que é necessário para uns, pode não ser necessário para outros. O mundo é sim dos mais adaptados, mas a definição do que é ser ‘adaptado’ é variável. E é isso que torna a evolução um fenômeno tão incrível.

 

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Texto por: Lidiane Torres
contato@sustentahabilidade.com

Referências:

Roscito JG et al. Phenotype loss is associated with widespread divergence of the gene regulatory landscape in evolution. Nature Communications, 9:4737, 2018.  doi: 10.1038/s41467-018-07122-z.

Imagem: https://www.sciencemag.org/news/2016/10/tiny-dna-tweaks-made-snakes-legless

 

 

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Bióloga, bacharel em Genética e Bioquímica, com Mestrado e Doutorado em Genética Humana pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente é pesquisadora de Pós-Doutorado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Tem experiência como professora e palestrante desde 2009, e conta com diversos artigos publicados em revistas internacionais.

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