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Consequências da crise econômica: quem vai registrá-las?

Consequências da crise econômica: quem vai registrá-las?

“Somos felizes ou infelizes por uma profusão de coisas que não aparecem, que não se dizem e que não se podem dizer.”  (Nicolas Chamfort, Pensamentos, máximas e anedotas)

Talvez, um dia, os historiadores do futuro escrevam sobre os efeitos da crise econômica que está afetando o país desde 2013. Não seria um relato de seus efeitos nefastos sobre a macro e a microeconomia, análises que já vêm sendo feitas por especialistas e instituições de pesquisa, porém, principalmente, sobre a vida diária das milhões de famílias e indivíduos do país.

Nos estudos técnicos quantitativos dos economistas e outros analistas, a crise representa principalmente escassez de recursos; menos investimentos, menos produção, queda do número de empregos, redução do consumo, aumento dos juros, aumento da dívida pública… O impacto de uma crise econômica destas proporções é comparável à de uma revolução ou de uma guerra; um abalo que faz com que tudo fique fora do prumo. Se a sociedade brasileira já vinha sofrendo um processo de desestruturação, de esgarçamento do tecido social, a crise econômica, com todas as suas consequências, contribuiu fortemente para ampliar e aprofundar este processo destrutivo.

Terão os futuros historiadores suficientes dados, informações e depoimentos, para relatar alguns dos milhões de dramas das pessoas comuns? Escreverão sobre os indivíduos que não constam dos relatos da história; as pessoas desconhecidas do registro da mídia, os que não ocuparam cargos públicos importantes, que esperaram horas e dias nas longas filas de atendimento, que em todo lugar foram apenas um número, aqueles que nada fizeram de excepcional e cuja memória persistirá, se muito, nas lembranças dos filhos e netos que eventualmente tiveram – para depois desaparecerem nesse mar de biografias esquecidas que é a história da humanidade?

Que lembrança ou relato restará de tantos planos de vida postergados para um futuro indefinido, dos projetos abandonados, dos sonhos desfeitos, das esperanças abandonadas? Mudanças de cidade para encontrar trabalho, relacionamentos desfeitos, carreiras interrompidas, estudos abandonados. Falta de recursos para continuar tratando uma doença, às vezes até falta dinheiro para comprar comida ou cuidar dos parentes mais velhos. Quem dará voz a estes milhões de indivíduos – gente de carne e osso (como escreveu o filósofo Miguel de Unamuno), com sentimentos e aspirações, como você e eu – que perderam o rumo, tomaram uma rasteira da vida e sofreram uma ruptura em suas existências e em seus sonhos?

Em países como Estados Unidos, que também foram afetados pela crise econômica, institutos médicos de pesquisa constataram que parte da população também foi afetada psicologicamente pelas consequências da recessão. A perda do emprego, de bens ou às vezes até da própria casa, aumentou os casos de depressão, síndromes diversas e, consequentemente, o consumo de álcool e drogas. Uma geração de americanos, em sua maioria membros das classes assalariadas mais baixas, está morrendo mais cedo por doenças relacionadas diretamente ao estresse profundo: doenças do coração, diabetes, acidente vascular cerebral, câncer e consumo de drogas.

Quem poderá avaliar quais serão as consequências da crise econômica aqui no Brasil, na vida dos indivíduos, das famílias e dos grupos sociais? E o mais importante: quem fará o relato destas desgraças, das tragédias vividas pelos Joãos e Marias, pelos Antonios e pelas Anas? O mais provável é que, também desta vez, estas vidas e suas histórias sejam ignoradas e esquecidas, submergindo no infinito mar da história, onde a maioria de nós desaparecerá anônimamente.

 

Texto: Ricardo Rose
contato@sustentahabilidade.com

Imagem NewsWeek

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Ricardo Ernesto Rose, jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias.

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