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Lucrécio e o consumo

Lucrécio e o consumo

Escrevia o poeta e filósofo romano Lucrécio (99 a.C-55 a.C) que “nada vem do nada e nada acaba em nada”, referindo-se ao fluxo do universo; a energia a matéria e a vida. Este mesmo princípio, se pensarmos bem, também se aplica perfeitamente ao nosso mundo humano: a economia, com todos os seus fluxos de matérias primas, insumos, energia e produtos. Podemos não nos dar conta disso, mas todo e qualquer produto tem uma origem anterior e mesmo depois de descartado não desaparece.

 

O sapato, por exemplo; se é um produto de qualidade, é feito de couro. O couro geralmente é extraído do gado bovino, que precisa se alimentar e crescer em áreas de pasto e com ração. A área de pastagem em alguma época passada já foi área de floresta ou cerrado, removida para dar lugar à criação. A ração é principalmente produto da mistura de capins, silagens e farelos, plantados em terrenos que originalmente também foram ocupados por algum tipo de ecossistema natural. Assim, para obter a principal matéria prima do sapato, os homens tiveram que ocupar e destruir espaço da natureza.

 

O passo seguinte, depois da extração, é a preparação do couro, o curtimento. Para isso também são necessários produtos químicos de origem vegetal, como o tanino, ou mineral, como o cromo. Tanto para a produção do tanino, extraído principalmente da casca do carvalho, quanto para a extração de cromo na forma mineral, é necessário agredir o ambiente original, seja pela agricultura ou mineração. Além disso, o processo de curtição do couro demanda grandes volumes de água e gera efluentes altamente tóxicos. Não podemos nos esquecer de que muitos sapatos têm sola de borracha, o que implica falar sobre mais outro segmento industrial e seus impactos ambientais, o que, todavia não faremos no momento.

 

Pronto o sapato, este é distribuído para as lojas, geralmente por via rodoviária. Os caminhões operam com diesel e ainda têm motores relativamente poluentes, emitindo grandes quantidades de CO² e outros gases causadores das mudanças climáticas. Também precisamos considerar o fato de que para comprar o par de sapatos, o consumidor necessita se deslocar – geralmente com seu próprio carro, dada a baixa qualidade do transporte público no Brasil – e assim também contribuiu com emissões de gases poluentes.

 

Depois de alguns meses ou até anos, dependendo da freqüência do uso e da qualidade do produto, o sapato está gasto – nem o sapateiro pode ajudar mais. Geralmente o destino do calçado é o lixo e dali para um aterro sanitário, onde levará em média 50 anos até que se decomponha.

 

Esta é uma descrição bastante simplificada dos impactos ambientais que ocorrem na produção de um par de sapatos. As matérias primas e insumos têm sua origem na natureza. Estas, somadas à energia dos derivados de petróleo, à eletricidade de hidrelétricas e ao trabalho humano físico e mental, formam os bens e serviços necessários à nossa sobrevivência. Este processo ocorre e se repetirá por bilhões de vezes com os produtos e serviços que diariamente são consumidos pela humanidade, até que acabem as matérias primas, a fertilidade dos solos, a disponibilidade de água, as fontes de energia e outros insumos. Quanto a isso, Lucrécio também escreveu: “Para quem vive segundo os verdadeiros princípios, / a grande riqueza seria viver com pouco, / serenamente: o que é pouco nunca é escasso.

 

 

Ricardo Rose é jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Atua desde 1992 nos setores de meio ambiente e energia, na área de marketing de tecnologias. É diretor de meio ambiente da Câmara Brasil-Alemanha e editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com)

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Ricardo Ernesto Rose, jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias.

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