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No país das declarações

No país das declarações

O Brasil, que já foi intitulado, entre outras coisas, de “país dos magistrados”, “país do futuro” “país do samba, futebol e carnaval”, “país tropical”, está prestes a adquirir mais um título. Desta vez será o “país das declarações”. Durante toda a história do país provavelmente não houve um período histórico – desde o surgimento da imprensa evidentemente – em que foram dadas tantas declarações nas mais diferentes situações.

Em nosso país de tradição autoritária, tanto na política quanto nas relações sociais, uma declaração é muitas vezes tomada como uma entrevista; um relato sobre determinado acontecimento ou explicação de algo que ocorreu – quando na prática não é isso. As chamadas “entrevistas”, que aparecem na mídia, relacionadas a acidentes envolvendo a morte de pessoas, danos ao patrimônio e meio ambiente são, na prática, declarações. Executivos de empresas, ou porta-vozes de instituições quando “entrevistados”, eventualmente respondem a algumas perguntas, desde que não sejam questionados aspectos do que informaram (leia-se “declararam”).

Em situações envolvendo o governo ou políticos o procedimento é geralmente o mesmo. São poucas as ocasiões em que o entrevistado efetivamente está disposto a responder a todas as perguntas e nas quais os jornalistas possam colocar em questão afirmações do entrevistado. Tais situações, em geral, só ocorrem no ambiente protegido dos estúdios de TV, durante entrevistas cujo resultado já está tacitamente acertado entre as partes.   

Declarações são situações em que se faz um relato sobre determinado fato ou acontecimento, em favor de outra pessoa, causa ou ideia, procurando evidenciar uma verdade na qual se acredita ou quer se fazer acreditar. Tal declaração também pode ser utilizada como ato de prova a favor ou contra algo ou pessoa. Uma declaração sempre expressa um ponto de vista ou uma opinião. Ou seja, – e aqui um aspecto muito importante – a declaração envolve sempre um posicionamento, uma conclusão que se defende a respeito de um acontecimento. No Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (edição de 1982) lemos a definição:

s. f. (l. declaratione). 1. Ação ou efeito de declarar. 2. Aquilo que se declara; afirmação formal; asserção explícita. 3. Documento em que se declara alguma coisa. 4. Depoimento. 5. Informação ou documento que informa a respeito de quantia, número e espécie de rendas, lucros, bens […]

A tática da declaração geralmente funciona, quando o receptor da mensagem não dispõe de nenhuma ou poucas informações sobre o assunto que está sendo tratado pelo emissor. Assim, na falta do contraditório, pelo menos naquele momento, o declarante tem uma grande vantagem sobre seu público. A possibilidade de evitar as perguntas dos jornalistas sobre o ocorrido, faz com que a declaração (ou versão) seja tida como interpretação verdadeira dos fatos – pelo menos até que surjam mais informações sobre o assunto em questão.

A estratégia da declaração muitas vezes funciona; se não completamente, pelo menos de maneira a impedir ou postergar a apuração dos fatos como verdadeiramente ocorreram. Isto por diversas razões. Sob aspecto da psicologia social é bastante importante a primeira versão do fato, aquela dada através de declaração à imprensa pelo causador do ocorrido ou por seu agente. No caso das tragédias sucedidas ultimamente no país, trata-se daquela primeira “entrevista” dada à imprensa pelo presidente da mineradora ou do clube de futebol, dizendo-se consternado e profundamente triste com o acidente. Nesta declaração, sempre são utilizadas frases e palavras que mostrem a surpresa perante o ocorrido e sensibilização com o sofrimento das vítimas. Implícita também fica a mensagem de “estamos sofrendo com vocês!”

Outra razão pela qual a declaração funciona é que grande parte da população não segue o desenrolar das investigações sobre o fato em detalhes. Geralmente, apesar do trabalho da imprensa, as informações são absorvidas parcialmente e a maior parcela do público não chega a conhecer os detalhes e as implicações do acidente com a empresa, ou do crime envolvendo o político.

Por final resta ainda falar sobre a atuação da imprensa, que na opinião de muitos – principalmente jornalistas tarimbados – perdeu parte de sua capacidade investigativa nos últimos anos. Interesses econômicos, pressão política, além da necessidade de sobrevivência do próprio veículo de imprensa, fazem com que em muitos casos o ocorrido não seja investigado com a imparcialidade que se espera – principalmente em acontecimentos envolvendo políticos.

Assim, permanece a questão se a sociedade brasileira se dá por satisfeita com declarações, ou se valoriza a liberdade de imprensa, exigindo acesso, o mais próximo possível, aos fatos.  

Texto: Ricardo E. Rose

contato@sustentahabilidade.com

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Ricardo Ernesto Rose, jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias.

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