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O diabo mora nos detalhes…

O diabo mora nos detalhes…

Quem não se lembra, lá pelos meados de 2006, da imagem sorridente do então Presidente da República com as mãos manchadas de óleo cru, vestido num macacão cor de laranja anunciando a descoberta do pré-sal? Aquela imagem, convenhamos, animava o mais pessimista dos seres. Naquela oportunidade, o preço do barril, oscilava na faixa de US$ 65,00. Porém as perguntas fundamentais eram, quanto custaria extrair a 7.000 metros de profundidade ? Como prever as oscilações do mercado que justificasse a relação custo/benefício ? Qual o viés tecnológico no campo energético para o século XXI ?
Os mais otimistas destacavam a relatividade dos custos de produção por conta do ganho de escala futuro e do avanço tecnológico para extração, desqualificando portanto o eventual problema de custo, classificando como detalhe pouco significativo. A referendar esta lógica, temos o exemplo doméstico do Proálcool, inviável nos anos 70 e fundamental nos anos subsequentes. Contudo, recordamos que nos anos 70 não havia nenhuma alternativa, cara ou barata, para substituir o ouro negro. Mergulhar naquela alternativa foi uma escolha que se mostrou acertada, porém única, mas lembrando que passamos a produzir um outro produto, substituto do petróleo, que revolveu e renovou toda indústria, especialmente de motores.
O que se viu de lá para cá na política dos países avançados, foi justamente buscar outras alternativas, substitutas, cada um a sua maneira, criando e desenvolvendo novos produtos e utilizando fontes energéticas diferenciadas.
Enquanto isso, a grosso modo, entre 2007 e 2008 o preço do barril aproximava-se de US$ 90,00 e nos anos de 2009 até 2012 superava levemente o US$ 100,00, com oscilações para cima e para baixo, na mais pura lei de mercado, a chamada oferta e procura, tão desconhecida da esquerda caviar e seus seguidores. A expectativa sonhatica dos envolvidos, aqui no Brasil, era que o preço do petróleo poderia chegar a US$ 120,00 o barril no início do século XXI.
Isto posto, a Petrobras estimou a necessidade de investimento de US$ 400 bilhões no período 2012/2020 , somente para o pré-sal. Este valor, mesmo considerando um período de 8 anos, é semelhante ao PIB anual de muito país, mundo afora. Não é pouca coisa. Mas tudo parecia normal.
Mas o mundo foi seguindo sua trajetória, onde o ser humano as voltas com a incessante busca de soluções energéticas, foi testando e usando de tudo. Óleo de cozinha reciclado em avião. Energia solar em países europeus com intensidade muito inferior ao hemisfério sul. Eólica em locais com costa marítima insignificante, quando comparada com a brasileira, por exemplo. Isto para não dizer na população de bois no Brasil, que representa 1/3 de TODA população humana da Europa, na produção de biomassa.
Para a desgraça geral da nação, os EUA (por conta do xisto) reduziram em 2014, as importações de petróleo em torno de US$ 600 bilhões ano. Ou seja, num único ano, os norte americanos por conta de um novo produto, empurraram o mercado de petróleo para baixo, equivalente a 1 ½ pré-sal de investimentos para uma década.
E não param por ai. A Tesla Motors, lançará um modelo de carro elétrico (EUA), com nome muito significativo: Powerwall. Este veiculo permite deslocar a bateria do automóvel para a parede de uma residência, possibilitando recarregar as baterias das placas solares de um imóvel . É a incrível fusão dos conceitos de utilidade do imóvel com o móvel no campo energético. E tem mais ! A General Motors lançará em 2016, um modelo elétrico batizado de “Bolt”, com preço de venda de US$ 30 mil. Estes novos conceitos (preço baixo dos veículos e alternativas tecnológicas) impulsionaram o mercado norte americano, levando os consumidores a adquirirem 64.000 unidades de elétricos em 2014. E o Brasil ? Nanicos 855 automóveis.
Fica claro portanto que enquanto fazemos mais do mesmo no Brasil, o mundo faz menos do mesmo e mais de outras coisas. Enquanto diversos países tentam reduzir o consumo de petróleo e de outras fontes ditas tradicionais (carvão e nuclear), seguimos inversamente, cavando petróleo a 7.000 metros e retomando Angra 3, interrompida há 20 anos, um contra senso quando comparado com a Alemanha (fornecedora das turbinas), que desligará até 2025, todas suas usinas nucleares.
O que está claro e indiscutível nos dias de hoje, é que a Petrobrás extrai petróleo do pré-sal a um custo de cerca de US$ 50 o barril, igual ao preço atual do mercado. Não tem mais capacidade isolada de investimento e tampouco tem achado parceiros para esta aventura subaquática . Porém o site da empresa em 2015, continua festejando, como se estivesse estacionado em 2006, dizendo “De 2010 a 2014, a média anual de produção diária do pré-sal cresceu quase 12 vezes, avançando de uma média de 42 mil barris por dia em 2010 para 492 mil barris por dia em 2014. Atualmente, essa produção corresponde a aproximadamente 20% do nosso total de produção de petróleo e em 2018 chegará a 52%”. Somente esqueceram de citar um mísero detalhe : custo ! Sobre as perspectivas do futuro (reais) então ? Nem pensar !
Do nosso otimismo do passado recente, portanto, pouco tem restado. Daquela imagem das mãos manchadas de 2006, a única coisa que nos restou são as mãos manchadas … e não são de petróleo.
Roberto Mangraviti
Economista, Consultor de Sustentabilidade da ADASP- Associação dos Distribuidores e Atacadistas do Estado de São Paulo, Colunista do Instituto de Engenharia de São Paulo, Editor do Portal Sustentahabilidade.com, Diretor e Apresentador do Programa SustentaHabilidade transmitido pela FLIX TV.

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Economista e Facility Manager em Sustentabilidade. Editor, diretor e apresentador do Programa Sustentahabilidade.com pela WEBTV. Consultor da ADASP- Associação dos Distribuidores e Atacadistas do Estado de São Paulo e colunista do site do Instituto de Engenharia de São Paulo.

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