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O valor da longevidade

O valor da longevidade

Quando se questiona o valor da vida humana, para a maioria das pessoas, a resposta está na ponta da língua: a vida não tem preço.

Sob várias perspectivas, ética, moral, religiosa, entre outras, isso costuma ser verdade. Afinal, parece ser de entendimento geral que a vida é o nosso “bem mais precioso”.

No entanto, até que ponto essa máxima é verdadeira quando se observa o comportamento das pessoas?

Há algum tempo foi divulgado o resultado de uma pesquisa que estimou uma média de 11 minutos o tempo de vida que um fumante perde a cada cigarro, o que equivale a 3 horas e 40 minutos por maço[1].

Pode parecer pouco, mas, associado a outros comportamentos de risco como sedentarismo, dieta não balanceada e abuso de álcool, consegue reduzir significativamente a expectativa de vida de alguém.

Nesse sentido, é interessante observar que, apesar da imprecisão de certas estimativas que não levam em conta muitas variáveis, as pessoas estão, em certa medida, cientes dos efeitos de seus comportamentos sobre a própria saúde. Sabe-se que, infelizmente, uma parcela da população não possui o devido acesso à informação. No entanto, é de se admirar a presença desses comportamentos entre pessoas relativamente cultas: há cardiologistas que fumam cigarros; universidades e colégios estão cheios de usuários de maconha.

É o caso de se perguntar o que há de errado com o ser humano para que se prejudique deliberadamente.

Se, por exemplo, alguém for avisado de que perde um dia de vida a cada coxinha que come, devido ao alto teor de gorduras desse alimento, ainda que essa pessoa não desconfie desse dado um tanto exagerado, é possível que imagine o curso de sua vida e calcule consigo que melhor viver pouco consumindo coxinhas, do que muito sem elas.

Esse exemplo, apesar de corriqueiro, reflete, se não a mentalidade, pelo menos o comportamento de muitos.

Vale lembrar a  famosa piada do paciente que, no consultório, pergunta se viverá muito ao ficar sem sexo, álcool e cigarro, e o médico lhe responde “para quê? ”.

Em economia diz-se que os agentes tomam decisões visando maximizar a sua utilidade, isto é, a sua satisfação. Se um agente racional escolhe a coxinha, é porque, para ele, um dia comendo coxinha é mais vantajoso do que dois fazendo dieta.

É daí que a resposta do médico começa a fazer sentido. Por um lado, há quem ache caro pagar R$ 500,00 em um medicamento e gaste isso com uma garrafa de uísque. Por outro, há quem passe a vida a se cuidar. Tudo depende da situação e das preferências de cada um.

Mortes no Brasil

No Brasil, cerca de 70% das mortes deve-se a doenças crônicas[2], ou seja, aquelas de progressão lenta, como a AIDS, o diabetes e a hipertensão.

Um diabético (assim como qualquer pessoa) pode aumentar o seu tempo de vida praticando atividade física e tendo uma alimentação balanceada. Contudo, é comum se observar o contrário.

Talvez o mais difícil seja imaginar que há, em muitos casos, uma decisão racional por trás desses comportamentos.

Não necessariamente uma má dieta leva a uma doença, mas aumenta a sua probabilidade. Semelhante a uma loteria, há uma chance de algo ocorrer, um prêmio associado ao risco.

Há entretanto indivíduos neutros, avessos e “amantes” do risco (risk-loving).

Quando se entra em um avião, em um elevador ou quando se passa por um bairro perigoso, é o mesmo raciocínio.

Assim, embora a vida não tenha um preço, cada indivíduo calcula o custo benefício de trocar uma porção dela, do seu “bem mais precioso”, por outras coisas mais triviais como cigarros e uísque.

Mesmo no caso dos “bens” de vício pode-se dizer que há, até certo ponto, um pragmatismo por trás das decisões dos indivíduos, os quais, via de regra, fazem o que consideram mais vantajoso para si.

Dentro de certos limites orçamentários, genéticos e tecnológicos, dentre outros, fica a critério de cada um decidir se quer viver por mais ou menos tempo.

Embora, em uma situação de calamidade, um incêndio ou um naufrágio, por exemplo, dificilmente alguém pararia para pensar sobre quem merece ser salvo primeiro, pois

ninguém tem o direito de fazer tal julgamento, é possível notar, indiretamente, pelas decisões tomadas, o valor subjetivo que cada um atribui à própria vida.

Portanto, quem afirmar que a sua vida tem valor infinito, que aja de tal forma a nunca diminuir ou a arriscar, visto que, matematicamente, uma fração de infinito, por menor que seja, continua sendo infinito e não há nada que o supere.

Alguém assim só poderia fazer tarefas simples como atravessar a rua, entrar em um elevador ou consumir um alimento depois de calcular ser mais perigoso não as realizar, o que logo levaria esse indivíduo à paranoia, sendo preferível pensar em um valor apenas relativo.

Texto: Rafael de Lima Monteiro
contato@sustentahabilidade.com

Imagem:

http://www.robsonpiresxerife.com/wp-content/uploads/2017/03/Faca_a_escolha_certa2.jpg

[1] https://super.abril.com.br/blog/oraculo/quanto-de-vida-se-perde-a-cada-cigarro-fumado/

[2] http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742014000400002

Ver Comentários (1)

1 Comentário

  1. Erica

    4 de setembro de 2017 às 23:38

    Equilibrar prazeres x deveres é uma das questões complicadas da vida. O que é fácil pra um, pode ser difícil pra outro. Parabéns pelo texto

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