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A origem do riso

A origem do riso

Nas redes sociais, no rádio, na televisão, nos filmes, em toda a parte não é raro encontrar algo que incite o riso.

Há ocasiões para simular e ocasiões para dissimulá-lo; há piadas sem graça das quais ri somente por educação, e situações muito sérias, nas quais se aperta os lábios, cobre-se a boca e se espera que ninguém perceba.

Sabe-se que os sorrisos são controlados por dois conjuntos de músculos: os zigomáticos maiores, ao lado do rosto e nos cantos da boca, que faz mostrar os dentes e estica as bochechas, e os orbiculares ópticos, que estreitam os olhos.

Enquanto sorrisos autênticos contraem esses dois tipos de músculos, os fingidos costumam mexer apenas os lábios.

Há cientistas que entendem o riso e o sorriso como formas de comunicação, algo equivalente a eles sendo usado pelos animais para demonstrar submissão diante de um mais forte, como se o animal sorridente dissesse “eu não sou uma ameaça”.

No entanto, às vezes um sorriso pode deixar pessoas preocupadas, achando que se sabe de algo que elas não sabem, que se tem uma carta na manga.

É certo que, quem ri por último, ri melhor. Em jogos de cartas, no xadrez, entre outros, rir pode ser uma estratégia.

Além disso, comerciais e propagandas frequentemente tentam ser engraçados no intuito de aumentar as vendas.

Assim, o riso é um assunto muito sério, tanto que, na Idade Média, por causa da crença de que Jesus nunca havia rido, os teólogos o condenavam como uma fraqueza humana e, em mosteiros da Alta Idade média, ele era proibido e punido com chicotadas (SILVA, 2007).

Apesar de haver uma multiplicidade de visões sobre o risível, teorias do alívio, da superioridade, da “violação benigna”, entre outras, uma muito interessante é a teoria da incongruência do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

Para Schopenhauer, o riso resulta do conflito entre o abstrato e o intuído, da súbita percepção de uma incongruência entre um conceito e o objeto pensado através dele.

Ou seja, é quando se percebe uma divergência entre a realidade (intuído) e uma expectativa pensada (abstrato) que se ri.

Quanto maior essa divergência, mais frenética a risada.

Um exemplo dessa divergência acorre em uma charge em que uma mulher faz faxina enquanto espera a diarista.

Quando seu filho questiona o motivo disso, ela lhe pergunta o que a diarista vai pensar ao encontrar a casa naquele estado.

Nesse caso, o conceito abstrato – de que se deve manter a casa limpa para receber visitas – entra em conflito com a realidade intuída, isto é, a função da diarista, que é fazer a limpeza no lugar da dona da casa.

Outra anedota, contada por Schopenhauer, seria a de um homem que diz gostar de caminhar sozinho.

Ao ouvir isso, um outro, contente por encontrar alguém com o mesmo hobby que ele, o convida para caminharem juntos.

Assim, a ideia abstrata de que quem tem um hobby em comum pode praticá-lo junto é insustentável diante da natureza da atividade de caminhar sozinho, ou seja, insustentável diante da realidade intuída.

Essa relação do conhecimento intuitivo com o abstrato tem também a ver com o que o autor explica no capítulo 7 do segundo tomo de sua obra “o mundo como vontade e como representação”.

Para ele, o intelecto humano se assemelha a um banco emissor que, para ser sólido, precisa de dinheiro em espécie no caixa para poder pagar todas as notas emitidas. Os conceitos seriam as notas; as intuições, o lastro.

Aqui, a intuição é entendida como uma apreensão imediata das coisas, sem esforço, por isso uma forma primária de conhecimento, algo que dificilmente é transmitido.

O conhecimento intuitivo viria pela experiência, ao passo o abstrato seria obtido, por exemplo, pelos livros.

O filósofo vai além e diz que a “vitória” do conhecimento intuitivo sobre o pensamento causa alegria.

Além disso, os conceitos, ao contrário das intuições, são sempre gerais, nunca alcançando o particular, daí a possibilidade de surgirem as incongruências já ilustradas. Assim, o motivo de os animais não rirem seria não terem a capacidade de abstração e não formarem pensamentos que entrem em conflito com a realidade.

A razão de boa parte das piadas se tratar de sexo, de ser tão fácil fazer piadas obscenas, “não seria possível se no seu fundo não residisse a mais profunda seriedade”.

Isso faz sentido quando se considera a quantidade de tabus ligados à sexualidade e, talvez, ao papel dela de continuidade da espécie.

A seriedade, ao contrário do riso, estaria presente na pessoa que acredita pensar as coisas como elas realmente são, ou que as coisas são do jeito que ela pensa.

Porém, quanto mais séria uma pessoa, mais frenético se torna o seu riso.

Devido à sua postura, qualquer incongruência, mesmo pequena, é capaz de levá-la a rir.

Quando essa incongruência é proposital, surgem a ironia e a paródia.

O contraste entre o intuído e o pensado aparecem de maneira clara nesses gêneros. Uma situação real (particular) é inserida em um conceito mais amplo (um pensamento abstrato), com uma intenção diferente da que se pretende mostrar.

Fazer ironia seria encontrar, para um objeto, um conceito sob o qual ele possa ser pensado, embora esse objeto não se encaixe com outros objetos pertencentes a esse mesmo conceito. Seria, portanto, a brincadeira escondida na forma de seriedade, pois começa-se com um semblante sério e termina-se com um risonho.

Já o humor é a seriedade escondida atrás da brincadeira, é o “duplo contraponto da ironia”.

Nele, começa-se com um semblante risonho e termina-se com um sério.

Estaria ligado a uma certa disposição subjetiva em conflito com o mundo exterior, algo bastante sutil.

Para Schopenhauer, um bom exemplo de humor é o comentário de um artista da sua época, Tischbein, sobre seu desenho “a grande sombra”: “alguém para quem nada deste mundo deu certo e que nada fez da vida: agora alegra-se em poder projetar uma sombra tão grande”.

De qualquer forma, a teoria da incongruência de Schopenhauer, com seus conceitos e intuições, ainda que não seja a única a explicar o riso, fornece um ponto de partida para entender o que torna certas piadas engraçadas e outras não.

O que faz uma pessoa rir pode também se mostrar bastante revelador, dando uma pista dos conceitos que ela possui.

Texto: Rafael de Lima Monteiro
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SCHOPENHAUER, Arthur; BARBOZA, Jair. O mundo como vontade e como representação. Segundo Tomo, Suplementos aos quatro livros do primeiro tomo / Arthur Schopenhauer. Tradução, apresentação, notas e índices: Jair Barboza. [S.l.]: Editora UNESP, p. 85-121, 2015.

PEASE, Allan.; PEASE, Barbara. Desvendando os segredos da linguagem corporal. Sextante, p. 54-69, 2005.

SILVA, Fernando Moreno Da. Travessias Pesquisas em Educação, Cultura, Linguagem e Arte. [S.l.]: Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2007. 4 v. Disponível em: <http://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/3594/2851>. Acesso em: 11 set. 2017.

 

Outros Textos do Autor:

O valor da longevidade

 

 

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