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Planejar ou tapar o sol com a peneira?

Planejar ou tapar o sol com a peneira?

Os meses que antecedem as eleições sempre se caracterizam pela ocorrência de coisas estranhas. De repente, leis que nunca conseguiram quorum para votação – mas cuja aprovação poderia beneficiar a população – são rapidamente aprovadas. Obras paradas há meses ou anos, repentinamente recebem recursos e são retomadas – às vezes até terminadas. Na imprensa, principalmente na TV, diminui o percentual de “notícias ruins” e aumenta o de “notícias boas”; eufemisticamente chamadas de “fatos positivos” acerca dos diferentes governos e partidos.

 

Talvez seja por isso que pouco se fala da crise da água, em São Paulo, e da crise da energia, em todo o Brasil. Pode ser até que o problema da falta de água na capital paulista e no interior do estado não seja tão grave assim, e que em pouco tempo o caso será solucionado. O mesmo vale para o setor elétrico cujo ministro, Edson Lobão, ainda em final de fevereiro voltou a descartar a possibilidade de o País passar por um racionamento em 2014.

 

Todavia, a situação não parece ser tão simples assim. Segundo o jornal Folha de São Paulo, a Agência Nacional das Águas (ANA), órgão federal responsável pelo controle dos recursos hídricos, e o estadual Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), recomendaram que fosse reduzida a captação de água no sistema Cantareira, que abastece grande parte da cidade. Caso a sugestão fosse acatada pela agência estadual de saneamento (SABESP), São Paulo entraria em uma situação de racionamento de água. O governador Alckmin, segundo o jornal paulista, negou que a SABESP já tenha um plano de racionamento. A avaliação para decidir-se por uma economia forçada de água ou não, deverá ocorrer ao longo do mês de maio. A idéia de sugar o fundo das represas, o chamado “volume morto”, é idéia cada vez mais aceita no governo estadual e talvez encarada como solução para a estiagem.

 

A mesma falta de chuvas afeta os reservatórios das usinas hidrelétricas, principalmente daquelas das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Segundo o jornal Valor, em matéria publicada em fevereiro, existem 18,5% de chances de que o País enfrente um racionamento de eletricidade. Este percentual poderá aumentar mais ainda a depender dos níveis de precipitação pluviométrica entre os meses de março e abril. Segundo o ministro Edson Lobão, o Sistema Elétrico Brasileiro tem uma “reserva” de seis a oito mil megawatts de energia nova, a entrar no sistema ainda durante 2014. Mesmo assim, segundo os técnicos, a situação é preocupante. Se ainda há energia nova a ser incorporada, é fato que o nível dos reservatórios de água está pior do que em 2001 e as termelétricas estão operando em sua capacidade máxima. Segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério das Minas e Energia, Maurício Tolmasquim, “existe 95% de probabilidade, com esta capacidade instalada que temos hoje, de ter um excedente de seis mil megawatts médios”.

 

Especialistas já prevêem outros anos com altas temperaturas e diminuição das chuvas – fato ligado à mudança da temperatura do oceano Pacífico e às mudanças climáticas globais. Estes fenômenos podem ser previstos e suas principais conseqüências, como a falta de água e de energia, são administráveis. Para isso, no entanto, é preciso planejar e investir; não adianta tapar o sol com a peneira a cada nova crise, só pensando nas eleições.

 

Ricardo Rose é consultor e jornalista, pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias, trabalhando para instituições internacionais. É autor de quatro livros sobre meio ambiente e sustentabilidade e editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com). Seu site profissional é: www.ricardorose.com.br

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Ricardo Ernesto Rose, jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias.

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