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Roberto Marinho –grande empreendedor das mídias brasileiras no século XX

Roberto Marinho –grande empreendedor das mídias brasileiras no século XX

O século XX ficou caracterizado no Brasil como a época do surgimento de importantes, diversificadas e plurais mídias, e nesse sentido, torna-se mister recordar o legado e a vitoriosa trajetória do empresário e fundador das Organizações Globo, o jornalista Roberto Marinho.

Nascido na então capital federal, a “maravilhosa cidade” do Rio de Janeiro, em 03 de dezembro de 1904, filho do renomado jornalista Irineu Marinho e de Dona Francisca Pisani Marinho, tendo sido o primogênito do casal.

Desde a tenra idade, acompanhava o denodado trabalho de seu pai, Irineu Marinho (1876-1925) como redator chefe do jornal A Noite, jornal do qual fora um dos fundadores em 1911. Mas em 1925, Irineu, já com um nome consagrado na imprensa brasileira, decide deixar o jornal onde tanto contribuiu para criar seu próprio periódico,  o qual intitulou O Globo, que foi lançado exatamente em 29 de julho daquele ano. Todavia, quarenta dias depois, veio a tragédia, Irineu Marinho falece Diante do luto e do enorme vazio que essa perda ocasionou, o nome do jovem Roberto Marinho, que registrava a época apenas 20 anos é designado para substituir seu saudoso pai, passando a trabalhar com o já renomado poeta e jornalista e fundador da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) Eurycles de Mattos (1888-1931), um dos colaboradores mais próximos de Irineu Marinho no  O Globo. Seis anos depois, com o falecimento desse eminente jornalista baiano, Roberto Marinho, ainda bastante jovem (26 anos), assume integralmente a direção desse jornal, cargo que ocupa por 71 anos, um notável recorde dentro da Imprensa Brasileira.

Numa época de agitada movimentação política e social, O Globo paulatinamente vai aumentando seu espaço entre os principais jornais da então Capital Federal do Brasil. O dinamismo de Roberto Marinho promove impactantes novidades, como o lançamento da revista Gibi, em 1939, reunindo já célebres histórias em quadrinhos com inesquecíveis heróis infantis e o lançamento, na época da Segunda Guerra Mundial, do suplemento O Globo Expedicionário (1944), que narrava diariamente, a participação das forças armadas nacionais nesse histórico conflito de escala mundial.

Além disso, é necessário realçar que Roberto Marinho agregou e constituiu uma equipe de notáveis jornalistas e intelectuais para trabalhar no jornal que passara a dirigir a partir de 1931. Nesse sentido, a contribuição de ícones jornalísticos como o já mencionado Eurycles de Mattos, da majestosa figura de Herbert Moses (1884-1972), que fundara o jornal com Irineu Marinho em 1925 e acompanhou Roberto durante décadas, ao mesmo tempo que presidia a gloriosa Associação Brasileira de Imprensa (ABI), alem da histórica presença de Sylvio Behring, como diretor de publicidade do jornal. O Globo . Também recebem merecido destaque os cronistas e colunistas culturais que nessas mais de 8 décadas imprimiram distinção e qualidade para o jornal O Globo, nessa plêiade de nomes imortais, pode-se destacar o mestre do romance pátrio Jose Lins do Rego (1901-1957), Gustavo Doria (1910-1979), na critica teatral, Antonio Olinto (1919-2008), na critica literária, Arthur da Távola (1936-2008), na critica televisiva, entre muitos outros.

Com o jornal o Globo já consolidado entre os principais matutinos do Rio de Janeiro, Roberto Marinho decidiu se lançar em novas mídias e em 1944, adquire as instalações da antiga Radio Transmissora, inaugurando em 02 de dezembro daquele ano a Radio Globo do Rio de Janeiro (PRA4)

A exemplo da bem sucedida experiência de seu jornal, Roberto Marinho fez questão de compor a equipe de seu empreendimento radiofônico com grandes profissionais, que marcaram não somente a história da Radio Globo mais sim do próprio rádio brasileiro. Dentre esses nomes, da primeiras décadas da PRA 4) tem-se o genial publicitário e compositor Miguel Gustavo (1922-1972) , o redator Moyses Weltman (1931-1985) que criou um herói legitimamente brasileiro, o “Jerônimo, o Herói do Sertão”, o celebre jornalista e político rio-clarense Raul Brunini (1918-2007), o eminente cronista e romancista brasileiro Alvaro Moreyra (1901-1964),o mestre da locução esportiva Luis Mendes (1924-2011) enfim nomes da cultura nacional de varias gerações, que construíram essa Rádio, que nos dias atuais é a ‘cabeça” do Sistema Globo de Rádio, um aglomerado de emissoras de varias cidades brasileiras.

Logo depois, veio a Editora, intitulada Rio Gráfica, e Roberto Marinho brindava os leitores com magistrais publicações,.especialmente no campo artístico, como a Cinelândia, a Radiolândia (uma referencia em revista sobre radio e TV, lançada em 1953), a Filmelândia, a Querida, enfim,dezenas de títulos que consolidaram o espaço da editora de Roberto Marinho nas bancas e nas casas dos leitores brasileiros. Na década de 80, a Rio Gráfica passa a se denominar Editora Globo e continua lançando grandes títulos de revistas, como a Globo Rural , a Marie Claire e finalmente em 1998 a tão aguardada Revista Semanal, a Revista Época, hoje a segunda revista semanal mais vendida do Brasil , só ficando atrás da Revista Veja, da Editora Abril.E durante essa trajetória, nomes como Djalma Sampaio e Oswaldo Miranda foram de grande importância na consolidação dessa importante editora brasileira.

E após a grande e virtuosa ventura no jornal, na rádio e na edição de revista,. Roberto Marinho finalmente podia ingressar na seara da Televisão. Em 30 de dezembro de 1957 , o então presidente da republica Juscelino Kubitschek (1902-1976), juntamente com seu ministro Lucio Meira (1907-1991) , assinam o decreto de concessão do canal 4 do Rio de Janeiro para a Radio Globo, mais todo o minucioso o cuidadoso projeto de implantação dessa nova emissora de TV durou mais de sete anos, e só em 26 de abril de 1965, Roberto Marinho, ao lado de grandes executivos, jornalistas, técnicos , artistas, autores e profissionais puderam inauguram essa emissora nascente. Nesse grupo valoroso, encontravam-se dentre outros, o emérito publicitário de primeiro diretor de jornalismo do Canal 4 carioca , Mauro Salles, o diretor e ator já consagrado Graça Mello (1914-1979)e a competente direção geral do jornalista Rubens Amaral (1920-1997) o já consagrado repórter da Radio Globo.

Não demorou um ano para a Tv  Globo começar a registrar sucesso de critica e altos índices de audiência, e em 1966 o jovem diretor Walter Clark (1936-1997) ingressa na emissora e no ano seguinte contrata seu parceiro profissional de outras jornadas televisivas Jose Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o ilustre Boni, que a partir de então formam a celebre dupla Boni-Clark, que coordenam o vertiginoso crescimento da emissora, que em 1969 já lidera a audiência no Rio de Janeiro e no ano seguinte passa a Tv Tupi e atinge a primazia no IBOPE de São Paulo. Nesse processo é fundamental recordar a imprescindível presença de coroados profissionais, como Armando Nogueira (1927-2010), Janete Clair (1925-1983), Dias Gomes (1922-1999), Chacrinha (1917-1988), Dercy Gonçalves (1907-2008), Silvio Santos, Daniel Filho, Augusto César Vannucci (1934-1992) e mais de centena de outros espetaculares nomes que marcam a história da TV brasileira.

Todo esse processo é dirigido e acompanhado de perto pelo Dr Roberto Marinho, em especial a constituição da Rede Globo de Televisão, a partir da compra da TV Paulista, canal 5 de São Paulo em 1965 e da TV Belo Horizonte,o canal 12 mineiro e de emissoras próprias em Recife e em Brasília. Tal formação dessa potente rede televisiva se registra com o espantoso numero de 117 emissoras componentes Rede Globo quando do falecimento de Roberto Marinho em 2003. Hoje são 121 emissoras formadoras da Rede Globo de Televisão, atingindo mais de 99 % dos municípios brasileiros.

Diante de todo esse legado no campo das comunicações, Roberto Marinho fazia questão de usar esse capital empresarial para investir em concretas ações sociais e culturais, tendo sido um pioneiro também nesse aspecto. Foi um dos beneméritos para a criação do Museu de Arte de São Paulo, idealizado por Assis Chateaubriand, seu concorrente no campo televisivo, mas nunca adversário nas relações inter-pessoais. Em 1977 Dr Roberto cria a Fundação Roberto Marinho, uma referencia em projetos educacionais , como o Telecurso primeiro grau. Também aprova a criação da Campanha Criança Esperança em 1986.

E na triste data de 06 de agosto de 2003, quando caminhava para os 99 anos de profícua vida, Roberto Marinho expira, passando imediatamente a receber consistentes tributos e homenagens, diante de uma das mais importantes e relevantes obras nas comunicações do Brasil. Nesse tempo Roberto Marinho já atingia a imortalidade da Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, quando sucedeu seu amigo Otto Lara Rezende (1922-1992), alem de dois prêmios Emmy, de dois prêmios Maria Moors  Cabot de Jornalismo, dentre muitos outros.

E tal construção dessa escultural obra só foi possível pela constante atuação de sua família, inicialmente seus irmãos Ricardo Marinho (1909-1991) e Rogerio Marinho (1919-2011) e posteriormente seus três filhos Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e Jose Roberto Marinho, mas também de uma série de competente e dedicados amigos e colaboradores  em todos os meios midiáticos onde Roberto Marinho se empreendeu com manifesto sucesso. Alias, isso está consignado nas próprias palavras desse pioneiro da imprensa e da radiodifusão; em discurso do ano de 1979.:

“Procurei cercar-me de homens de valor, corretos, que pudessem apressar a conquista de uma cultura indispensável às minhas atividades”.

Esse é uma pequena síntese do pensamento desse construtor do Brasil do século XX, que desde a mocidade, e a base de muito e ininterrupto trabalho, concebeu centenas de títulos, de empresas e de projetos que até hoje distinguem e enaltecem a cultura, a informação e as matizes do Brasil e de seu povo.

E hoje, Roberto Marinho é perpetuado com nome de uma grande avenida em São Paulo, do Aeroporto de Jacarepaguá, em sua cidade natal, de biblioteca, escolas e muitos outros próprios públicos culturais e educacionais.

Parabéns Doutor Roberto Marinho, por sua obra de inquestionável qualidade, de liderança empresarial e de dedicação a educação, a comunicação e a cultura brasileira.

Texto: Fábio Rejaili Siqueira
contato@sustentahabilidade.com

Artigos sobre a História da Televisão Brasileira, conduzidos pelo nosso especialista, Fabio Rejaili Siqueira, Bacharel em Direito, Bacharel em Ciências Sociais e e pesquisador da história da televisão brasileira. É um dos fundadores do Jornal São Paulo em História e também trabalha como cooperador do Museu da TV em São Paulo (bairro Sumaré) que recomendamos que todos visitem.

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Bacharel em Direito, Bacharel em Ciências Sociais e e pesquisador da história da televisão brasileira. É um dos fundadores do Jornal São Paulo em História.

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