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Socialismo não funciona X Governo brasileiro fascista

Socialismo não funciona X Governo brasileiro fascista

O socialismo não funciona, vejam a Venezuela.  O governo de direita brasileiro é fascista.

No mundo ocidental e principalmente no Brasil, tanto certas direitas como certas esquerdas tentam usar chavões, como os acima, explorando lacunas no conceito que o educador Paulo Freire chamou de consciência crítica, para ladinamente atacar as posições políticas opostas.

A esquerda tenta combater o populismo nascente atual chamando-o de fascismo.  Conforme Emilio Gentile, historiador italiano que é o maior especialista no assunto: “O fascismo sempre negou a soberania popular, enquanto o nacionalismo populista de hoje reivindica o sucesso eleitoral. Esses políticos de agora se dizem representantes do povo, pois foram eleitos pela maioria. Isso o fascismo nunca fez”. “O que há de novo, em todo o mundo, é um novo poder de direita nacionalista e xenófobo”. Em poucas palavras, um governo fascista nunca se vangloria por estar atendendo às aspirações de um povo que o elegeu: ele dita quais são as aspirações que o povo deve ter.

Por seu lado, esse poder de direita citado por Gentile, que eu chamo de populismo, também faz falsas proposições quando alega que a Venezuela é a prova que o socialismo não funciona, associando sempre socialismo a totalitarismo e corrupção.

Antes de tudo, é preciso que se entenda bem o que é capitalismo e o que é socialismo. Só esta discussão daria um livro, mas vou tentar simplificar alguns pontos chaves que interessam a este artigo. O capitalismo, entre outras coisas, propõe que a renda de cada um deve ser obtida pelo mérito individual, e que toda exceção que promova a igualdade deve ser justificada. Um dos maiores expoentes do pensamento de direita, Margaret Thatcher, deixou claro esse ponto numa entrevista dada em 1987: “Não existe essa coisa chamada sociedade. O que existe é uma trama viva de homens e mulheres…e a qualidade de nossa vida dependerá de quanto cada um de nós está preparado para assumir a responsabilidade por si mesmo”. A atual direita brasileira talvez recorresse ao famoso lema “cada um para si e Deus para todos”.

Já o socialismo defende o contrário, que a renda deve ser tão uniforme quanto possível, e que toda exceção a essa regra é que deve ser justificada. Portanto, o ponto PRINCIPAL para definir o quão socialista é um país se define por quanto essa nação distribua a renda. Ponto.  A velha discussão que alia a propriedade estatal dos meios de produção como definição de socialismo não cola mais. Se assim fosse, nem a China é mais de esquerda. O maior indicador de socialismo hoje é a distribuição de renda promovida pelo estado, não só em dinheiro vivo, mas também em serviços sociais, e para forçar a distribuição de renda o estado não precisa possuir os meios de produção.  Essa classificação de distribuição de rendas é medida pelo índice GINI. Quem realmente estiver interessado em ver que países são os campeões de distribuição de renda, que procure no Google a classificação GINI. Depois, que procure também a classificação dos países com melhor qualidade de vida no mundo, e constatará que as duas listas mais ou menos coincidem: são países altamente democráticos, corrupção mínima, onde absolutamente o socialismo não foi implantado a força.  Mas todos eles tem também uma característica fundamental: população com altíssima consciência crítica universal.

O que é essa consciência crítica e como se aprimora? Basicamente pelo sistema educacional. Paulo Freire disse que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Chamou os costumeiros sistemas de transferência de conhecimento, que combatia, de educação bancária.  O filósofo Mario Sergio Cortella explica o que é a educação bancária: “Obviamente não tem nada a ver com a profissão de bancário, mas muitas pessoas supunham que, para educar alguém, bastava fazer depósitos sucessivos, como se fosse um banco, e no dia da prova se fazia o cheque, que vinha com ou sem fundo. Como se o aluno ou aluna, tivesse a idade que tivesse, fosse um recipiente vazio, que bastava depositar dentro. Paulo Freire também falava do perigo de fazer da educação uma domesticação, isto é, adestrar alguém. Estou usando a palavra adestrar como se usa para outros animais: tirar deles o que é de vontade própria, o que é puramente instintivo, fazer com que eles vivam conosco na nossa casa, o domus, o doméstico.”

Paulo Freire

Então, o como se desenvolve a consciência crítica? Segundo Paulo Freire, “quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e o seu trabalho pode criar um mundo próprio, seu Eu e as suas circunstâncias”. Eu humildemente acrescentaria “quando compreende a sua realidade em relação à realidade universal”. Disse ainda Paulo Freire: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.” Note-se aqui que a classe dominante pode ser de direita ou de esquerda.

A esquerda brasileira sempre argumentou que seu sistema educacional é freireano, e que a sua eliminação, agora com a “escola sem partido”, é a volta a um “sistema bancário”, ou à domesticação conveniente ao poder, como explicado acima por Mario Sergio Cortella. Mas a verdade não é essa, o sistema da esquerda brasileira também é “bancário”, como esclarece Luiz Lopes Diniz Filho, Doutor em Geografia pela FFLCH-USP: “Na prática, a coisa funciona assim: o professor questiona os alunos sobre o seu dia a dia, apresenta uma explicação ideológica para os problemas e insatisfações relatados, e depois discute com eles o que acharam desse conteúdo. Se os alunos discordarem da explicação, o professor argumenta em favor do seu próprio ponto de vista ideológico. Ao fim do diálogo, o professor conclui que os alunos que ele conseguiu convencer estão agora “conscientes” da sua “verdadeira” condição de oprimidos e explorados pela sociedade de classes. Ora, isso é apenas a dita “educação bancária” camuflada de diálogo! O professor apresenta uma única via para explicar as situações relatadas pelos alunos: a ideologia em que ele acredita. O aluno é deixado na ignorância sobre a existência de pesquisas que explicam as situações de pobreza, desigualdade, problemas urbanos e ambientais, entre outros, fora do universo teórico e ideológico do professor.”

O maior engodo que os exploradores da lacuna na consciência crítica se utilizam é passar a ideia que basta olhar se um sistema político é de esquerda ou de direita para que se tire uma conclusão sobre a sua validade. A situação política de um país não pode ser só analisada no eixo esquerda-direita, mas também no eixo liberdade-opressão. É intencional o meu uso da palavra liberdade ao invés de democracia, porque a primeira é maior que a segunda. A conceito de democracia está contido no de liberdade, mas não é o único. É importantíssimo que a democracia seja acompanhada de consciência crítica para que se concretize a liberdade plena. É evidente que o povo cubano está classificado como esquerda e não é livre. O mesmo com a China, que curiosamente nunca é citada pela direita como exemplo de falência do socialismo simplesmente porque é insustentável a tese da sua falência econômica, como é o caso de Cuba. Nenhum desses países é livre porque não tem nem democracia nem população com consciência crítica. Na outra ponta, à direita temos, por exemplo, a capitalista Arábia Saudita, onde a desigualdade extrema começa em casa, com mulheres que precisam de aprovação de um homem até para tratamento médico, proibição de qualquer organização política e sindical, e uma educação teocrática no mais alto nível “bancário”, de cima para baixo, sem a mínima consciência crítica.

Mas e os Estados Unidos, são totalmente livres?  Pesquisas mostram que o norte-americano médio não consegue posicionar nem mesmo o seu próprio país num mapa-múndi geográfico, sem as fronteiras políticas. Isso na média, imagine-se o que acontece com a população mais humilde.  Como regra, pode-se dizer que para o norte-americano, o resto do mundo não existe. Sem ter a mínima ideia do que seja a Escandinávia, por exemplo, é obvio que pressupor qualquer consciência crítica para avaliar os sistemas de governo escandinavos é inconcebível, e não só para norte-americanos.  Sem uma consciência critica universal, não conferida (propositalmente?) por um sistema educacional definitivamente bancário e que convém à política dominante, como se pode dizer que a escolha do povo, mesmo sendo democrática, é livre? Não existe liberdade sem consciência crítica universal, e quando não se consegue enxergar além do que lhe foi institucionalmente delimitado, fica fácil, conveniente e eficaz dizer que a falida, corrupta e totalitária Venezuela é a prova que o socialismo não funciona. Mais ainda no Brasil.

Colaboração : Giovanni Mangraviti

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